segunda-feira, outubro 25, 2021
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ILUDIR, DESILUDIR E GERAR VIDA

É comum pais que temem desagradar os filhos, que são incapazes de frustrá-los e impor-lhes limites. É o “medo de traumatizar” a criança. Estas são dificuldades narcísicas, e estes pais, narcísicos, não conseguem perceber que as necessidades de seu filho são diferentes das suas. Os pais precisam entender o que caracteriza um ambiente bom para a criança. Em relação a isto, Winnicott comenta: 

“A necessidade de um ambiente bom, de início absoluta, torna-se rapidamente relativa. A mãe devotada comum é suficientemente boa. Se ela é suficientemente boa, o bebê virá a dar conta de suas falhas através da atividade mental. Essa atividade mental do bebê transforma um ambiente suficientemente bom num ambiente perfeito, ou seja, transforma a falha relativa da adaptação num êxito adaptativo. O que libera a mãe da necessidade de ser quase perfeita é a compreensão do bebê” (‘Da pediatria à psicanálise – A mente e sua relação com o psicossoma’ – 1949 – Winnicott).

Ser pais suficientemente bom é perceber que as frustrações, os traumas sentidos pela criança podem favorecer o seu desenvolvimento emocional saudável. Mas é necessário também entender que existem dois tipos de traumas: os traumas adaptativos, que provoca na criança um reconhecimento e aceitação de uma realidade externa e que através desta experiência, de desilusão, fortalece a sua capacidade de lidar com suas emoções. O segundo tipo de trauma é chamado de maligno. São aqueles que ultrapassam os limites da capacidade da criança de adaptar e desadaptar e provocam uma cisão psíquica que dificulta o desenvolvimento de identidade e pode resultar na impossibilidade da experiência de habitar o corpo. 

Aquele que não habita seu próprio corpo é como um ser errante num deserto afetivo, à mercê de angústias intoleráveis que refletem o vazio existencial de um self desencarnado. Em vez de ser capaz de um viver criativo, tem instalado dentro de si um sentimento de futilidade, com relacionamentos esvaziados de qualquer investimento libidinal, e o grande horror que o avassala não é a perda da vida, mas a perda do sentido de viver.

O maior desafio para os pais não é ser perfeito ou parecer perfeito, mas viver como “perfeito”, mesmo não o sendo.

Reinaldo Nascimento

Psicanalista – SPP-PR

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