domingo, junho 20, 2021
InícioVariedadesReflexão: “Mother” (Pink Floyd) – Um Alerta Aos Pais

Reflexão: “Mother” (Pink Floyd) – Um Alerta Aos Pais

Alexander Lowen, médico e psicoterapeuta norte-americano, diz que “as experiências pelas quais uma criança passa durante os anos de sua formação, quando ela depende totalmente dos pais, condicionarão suas reações na vida adulta”, uma questão muito importante e séria para o seu desenvolvimento mental saudável.

A música “Mother”, do Pink Floyd, um diálogo entre mãe e filho, é um desabafo de quem foi impedido de viver suas próprias experiências e, consequentemente, teve os reflexos na sua psique. Aos cinco meses de idade, Roger Waters, autor e músico, perde seu pai numa batalha durante a Segunda Guerra Mundial e, a partir de então, é criado pela mãe, que se torna possessiva e superprotetora.

As falas do filho na letra deixam claro que ele era um jovem inseguro, com dificuldades para tomar decisões na vida, inclusive na construção de um relacionamento, e que não se sente capaz de lidar com a realidade, precisando da afirmação da mãe para tudo que vai fazer. Por outro lado, nas falas da mãe, observa-se uma atitude de quem quer superproteger seu filho e que projeta seus medos na vida dele, alguém que quer construir um muro em volta do filho para que nada o afete. É aquela ideia de colocá-lo dentro de uma bolha.

Mãe, você acha que eles vão jogar a bomba?

Mãe, você acha que eles vão gostar dessa música?

Mãe, você acha que eles vão tentar me castrar?

Mãe, eu deveria construir o muro?

Mãe, eu deveria me candidatar a presidente?

Mãe, eu deveria confiar no governo?

Mãe, eles vão me colocar na linha de fogo?

Mãe, isto é apenas perda de tempo?

Acalme-se agora, filhinho, não chore

Mamãe vai transformar todos seus pesadelos em realidade

Mamãe vai passar todos os seus medos para você

Mamãe vai manter você bem aqui, sob sua asa

Ela não vai deixar você voar, mas poderá deixá-lo cantar

Mamãe vai manter o filhinho quentinho e confortável

Ooh filhinho ooh filhinho ooh filhinho

É claro que a mamãe vai ajudá-lo a construir o muro

Mãe, você acha que ela é suficientemente boa para mim?

Mãe, você acha que ela é perigosa para mim?

Mãe, você acha que ela vai magoar seu garotinho?

Mãe, ela vai partir meu coração?

Acalme-se agora, filhinho, filhinho não chore

Mamãe vai avaliar todas suas namoradas para você

Mamãe não deixará nenhuma pervertida se aproximar

Mamãe vai esperar até você chegar

Mamãe sempre vai descobrir por onde você tem andado

Mamãe vai manter seu filhinho saudável e limpo

Ooh filhinho ooh filhinho ooh filhinho

Você vai ser sempre o meu bebê

Mãe, precisava ser tanto assim?

A questão não é condenar a mãe, pois uma análise sobre a vida dela deixaria claro que estas atitudes foram reflexo de situações em sua vida. O propósito aqui é apresentar algumas questões importantes na relação entre pais e filhos que podem ajudar você, mãe, e você, pai, a serem mais assertivos na criação do seu filho ou filha.

Na psicanálise, tratamos destas questões como “Função Mãe” e “Função Pai”, pois a questão não se resume a pais biológicos. Por diversos tipos de situações (morte, divórcio e abandono, por exemplo), muitos filhos são cuidados por um dos pais biológicos ou por nenhum deles e, mesmo nesta situação, não deixam de existir as Funções Pai e Mãe na relação. Portanto, quando citar aqui Pai ou Mãe, estarei me referindo à Função Pai e Função Mãe.

De forma bem resumida, podemos dizer que o propósito da mãe é acolher e dar os suprimentos necessários e o do pai é inclusão da lei. Por outro lado, precisamos perceber que um bebê tem a percepção de que ele é o centro do universo, que tudo existe a partir dele. Um bebê, quando chora de fome e o seio aparece para lhe saciar, tem a sensação que ele o criou. Uma outra questão importante é que o bebê é movido pelo prazer. Quando amamentado, ele sente prazer na sucção e também ao se saciar, sensações experimentadas que o estimulam a buscar o seio novamente e se satisfazer quando a “dor” da fome voltar a surgir.

Agora, você pode imaginar um adulto que permaneça, com o mesmo sentimento de um bebê, se considerando o centro do universo? Tendo a realização do prazer como o impulso que conduz a sua vida? Se, para um bebê, isto é de vital importância, é o adoecimento para um adulto, que passa a ter uma vida angustiante, pois a realidade que vai encontrar contraria todas as suas expectativas.

Para que o bebê possa crescer e, ao mesmo tempo, abandonar a sensação de “todo poderoso”, a mãe precisa estar atenta, pois, em meio ao acolher e suprir as necessidades do filho, é preciso ir dando à criança doses de frustrações que vão ajudá-la a ter um desenvolvimento emocional saudável, ensinando-a a lidar com as situações diversas da vida. O objetivo é ajudá-la a lidar com suas angústias e não projetar na criança as próprias angustias da mãe. Isto é o que está retratado nesta canção: uma mãe que transferiu todos os seus temores e sofrimentos para a criança que, consequentemente, quando adulta não estava preparada emocionalmente para enfrentar a realidade da vida.

O pai, por sua vez, é quem vai apresentar ao filho as “leis”, mostrar-lhe que existe uma realidade além dele, e ensinar que é preciso considerar que, para se relacionar bem em todos os âmbitos, existem “regras”. Quando falamos de pai, o associamos a autoridade, que faz referência à lei e ao seu cumprimento, mas o cuidado aqui é dosar de forma a não transforme isso em autoritarismo, o que resultará, por consequência, na geração de um adulto neurótico.

Se, por um lado, podemos afirmar que a impessoalidade e a alienação parental destroem a possibilidade de uma formação saudável para a criança, por outro, a melhor prevenção é o colo e a ternura.

Psicanalista Reinaldo Nascimento

IM Press&MKT/ @isabelemirandatv

Mother- Pink Floyd

Deixe uma resposta

- Advertisment -

Most Popular

Recent Comments

Valéria on Funk consciente