Guerra, petróleo e frete: por que o custo do transporte está pressionando a economia global?
O transporte rodoviário de cargas voltou ao centro das discussões econômicas globais. Em um cenário marcado por conflitos internacionais e instabilidade no mercado de energia, o aumento no preço do petróleo tem provocado impactos diretos e imediatos no custo do frete e, consequentemente, no preço final de produtos e serviços.
Na prática, a logística se tornou um dos primeiros setores a sentir os efeitos de tensões geopolíticas. Qualquer ameaça à oferta de petróleo, seja por conflitos armados, sanções econômicas ou instabilidade em regiões produtoras, gera reflexos quase instantâneos no transporte de cargas.
Para o especialista em logística e comércio exterior Filipe Veras, o momento atual exige atenção redobrada, pois o impacto não é apenas pontual, mas estrutural.
“Hoje o transporte não reage mais no médio prazo. Ele reage no curto. Qualquer tensão internacional que envolva petróleo ou rotas estratégicas impacta o custo do frete praticamente em tempo real”, afirma.
Com mais de duas décadas de atuação no setor e experiência direta em operações no MERCOSUL e nos Estados Unidos, Veras acompanha de perto como o mercado tem reagido a essas oscilações.
Combustível: o coração da logística
O diesel representa uma das maiores fatias do custo operacional do transporte rodoviário, no Mercosul, essa fatia pode representar de 35% em operações comuns e chegar a 50% do custo do frete em tempos de crise, já nos EUA o custo de combustível pode representar 20% do custo operacional. Mas, com uma escalada de crise, observamos uma elevação de 35% a 40% do custo de frete.
Nos EUA, há mecanismos e gatilhos homologados por lei, que impedem que o Transportador seja diretamente penalizado pela variação dos combustíveis, o conhecido Fuel Surcharge (Sobretaxa de Combustível). Esse é um Mecanismo de Defesa do mercado Norte Americano, os Embarcadores, Brokers e Transportadores, combinam um frete base, que segue inalterado; se o diesel subir acima de um teto estipulado, o cliente paga automaticamente um percentual por milha rodada, para cobrir a variação repentina da bomba.
Já o MERCOSUL e o Brasil especificamente, não contam com este benefício. Quando o preço sobe, não há margem suficiente para absorver o impacto sem repasse.
“Diferente de outros setores, o transporte tem pouca gordura. O combustível sobe, o frete sobe. É uma relação direta, sem muito espaço para amortecimento”, explica.
Segundo ele, esse efeito se propaga rapidamente pela cadeia produtiva. Indústrias pagam mais caro para transportar insumos, distribuidores repassam o aumento e, no final, o consumidor absorve a conta.

Instabilidade global reduz previsibilidade
Além do aumento de custos, o cenário atual trouxe um novo desafio para o setor: a falta de previsibilidade.
Antes, o planejamento logístico conseguia trabalhar com maior estabilidade de preços e rotas. Hoje, variáveis externas passaram a interferir diretamente nas operações.
“O maior problema hoje não é só o custo elevado, é a incerteza. Você fecha um frete hoje sem saber qual será o custo real da operação daqui a alguns dias”, destaca Veras. Isso limita a capacidade comercial em dar prazos alongados e garantias de negócios sem comprometer a margem.
Essa volatilidade tem forçado empresas a rever contratos, reduzir prazos de negociação e operar com maior cautela.

Efeito imediato nos Estados Unidos e reflexos no MERCOSUL
Nos Estados Unidos, onde o mercado de transporte rodoviário é altamente sensível à dinâmica de oferta e demanda, as oscilações no custo do combustível já impactam diretamente a disponibilidade de cargas para o mercado autônomo, e o comportamento do frete.
Atuando também no mercado norte-americano, Veras observa mudanças rápidas no cenário. Nos principais Load Boards (Market Place para cargas esporádicas), gráficos indicam que houve uma queda de 45% no volume de postagem de cargas, com um aumento de consolidação de cargas para longas distâncias transportadas por trem na casa de 9,5%, uma estratégia viável que os EUA possuí para rápida reação.
“O mercado americano responde muito rápido. Quando o custo sobe, o autônomo para, a oferta diminui e o frete dispara. É um efeito quase automático”, afirma.
No MERCOSUL, embora a dinâmica seja diferente, os impactos também são significativos, especialmente em economias mais dependentes do transporte rodoviário. Nossa malha logística depende de mais de 65% das rodovias e transportadoras, o dobro da necessidade americana.
Logística como termômetro da economia
Para Filipe Veras, o transporte de cargas deixou de ser apenas uma atividade operacional e passou a funcionar como um indicador antecipado da economia real.
“Se o frete está subindo, é sinal de forte demanda, aquecimento econômico ou algum fator direto impactando as commodities. Igualmente, se está caindo, pode indicar desaceleração, menor consumo. Dessa forma, a logística hoje é um termômetro muito claro do que está acontecendo”, analisa.
Cenário exige adaptação e estratégia
Então, diante desse contexto, empresas que dependem de transporte precisam se adaptar rapidamente. Isto é, adotando estratégias mais flexíveis e acompanhando de perto o cenário internacional.
Por fim, “A logística ficou mais estratégica. Quem não acompanha o cenário global e não entende o impacto do petróleo e da política internacional vai operar no prejuízo”, conclui Veras.
Fonte: Divulgação/Assessoria de Imprensa Fabi Franco
Fotos: Divulgação/Acervo Pessoal


